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As tragédias da primavera italiana

Por Wálter Fanganiello Maierovitch

IBGF, junho de 2018.

--*publicado na revista INSIEME número 231 (junho 2018) , em português e italiano.



Letzia Battaglia é uma fotógrafa internacional muito famosa. Nascida na Sicilia, --classe 1935--, pelas suas lentes passaram as grandes tragédias protagonizadas pela Cosa Nostra, a secular máfia siciliana. Os piores cenários e as grandes comoções colhidos ocorreram sempre no mês de maio.

br> Até o general Carlo Alberto dalla Chiesa, também brutalmente assassinado pela Cosa Nostra (1982), saiu em maio por toda a Itália em busca de informações sobre correlações entre essa supracitada organização criminosa mafiosa e as Brigate Rosse (Brigadas Vermelhas), de matriz eversiva-terrorista, em face do sequestro e posterior assassinado do ex-primeiro ministro Aldo Moro, consumado em 9 de maio de 1978. Moro, reconhecido mestre do direito processual penal, lider da nova corrente de pensamento ideológico do partido da Democracia Cristã, foi o artífice, com Enrico Berlinguer, do histórico e fundamental “ Compromesso Storico”.

br> A morte de Moro, cujo corpo cravado de balas foi abandonado em rua de Roma (via Caetani), a meio caminho entre as sedes centrais dos partidos Comunista italiano e Democracia Cristã, coincidiu com a do jornalista e ativista Peppino Impastato, dinamitado junto a um binário ferroviário.

br> Impastato, que leva o nome do primeiro centro de documentação e de estudos italianos sobre a máfia, conduzido pelo respeitado especialista Umberto Santino, mantinha, na pequena cidade siciliana de Cinisi e Terrasini , intensas atividades de radiodifusão de notícias e de produção escrita sobre criminalidade organizada e corrupção. Cinisi era também a terra de nascimento de um dos mais sanguinários chefões da Cosa Nostra, Gaetano Badalamenti, mandante do assassinato de Impastato. À época, Impastato havia descoberto um gigantesco esquema mafioso de corrupção nas desapropriações de terras e construção do aeroporto siciliano de Punta Raisa, que hoje leva o nome dos magisrados Giovanni Falcone e Paolo Borsellino, ambos dinamitados pela Cosa Nostra siciliana.

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O plano articulado pela mafia para matar Impastato, a mando de Badalamenti, consistiu em amarrar o jornalista nas linhas do trem, com o corpo forrado de tubos de dinamite. Isto para passar a impressão de Impastato estar a tramar um atentado terrorista e, por acidente, haver provocado a própria morte. Com a passagem do trem tudo iria aos ares. Como Impastado explodiu antes e o maquinista percebeu, evitou-se uma tragédia maior. A perícia orientada pela mafia concluiu por ato terrorista, com o laudo desmentido processualmente.

br> Um premiado filme intitulado ´Cento Passi´ (regia de Marco Tullio Giordana) conta essa real história: cem passos era a distancia entre as casas de Impastato e Badalamenti, que, anos depois morreu em prisão norte-americana, condenado por tráfico internacional de drogas ilícitas. De Impastato imortalizou-se a frase: La mafia uccide, il silenzio purê (A máfia mata, o silencia também).

br> Outra grande tragédia de maio aconteceu em Capaci, no ano de 1992 entre a autoestrada de ligação do aeroporto de Punta Raisi a Palermo. Os explosivos, acionados à distancia pelo mafioso Giovanni Brusca (capo mafia de San Giuseppe di Jato), foram colocados num duto estradal subterraneo de escoamento de água fluvial. Com a explosão, faleceram Giovanni Falcone, considerado o inimigo número 1 da Cosa Nostra, a sua esposa e magistrada Francesca Morvillo e três agentes da escolta: Antonio Montinaro, Rocco Di Cillo e Vito Schifani. A cratera decorrente da explosão tinha 14,3 metros de diâmetro e 3,5 metros de profundidade. A apurações e o processo levaram mais de 5 anos de dureção: o processo transcorreu em dois anos e quatro meses e foram condenados os responsáveis pelas comissões mafiosos de governo da região e da província, com 24 penas de prisões perpétuas aos chefões, dentre eles Toto´Riina, o capo dei capi da Cosa Nostra, morto em novembro de 2017, sem revelar nada a respeito das trativas entre Estado italiano e Máfia: no final de abril de 2018, foi publicada a sentença condenatória de primeiro grau sobre a Tratativa entre Estado e Máfia em face de a organização criminosa ter declarado guerra contra a Itália. Pela Máfia, segundo a sentença, tratou e restou condenado o ex-senador Marcello Dell´Utri (preso por ter sido já anteriormente condenado por associação à Máfia), fundador com Silvio Berlusconi do partido Forza Italia.

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foto: Pepino Impastato.


Neste 2018, Letizia Battaglia deverá, como já intuiu, responder às revistas americanas e européias que demandam sobre novas fotos sobre a Cosa Nostra e os seus novos chefões. A sua resposta já está pronta e convém reproduzir: “ Da anni faccio mostre con le mie vecchie foto, che purtoppo hanno perduto un po´ il loro sugnificato di resistenza proprio perché entrate nei musei. Fotografie della mafie oggi non ce ne sono. Con Toto´Riina e Bernardo Provenzano e le loro coppole abbiamo completato la narrazione? Fine della mafia fotografabile? Il fatto è che senza coppole ai giornali raccontare visivamente la maffia oggi sembra interessare poco. I mafiosi non sembrano più mafiosi”. (La Mafia Dopo Le Stragi, casa editrici Melampo, a cura di Attilio Bolzoni,pg.123).

br> Wálter Fanganiello Maierovitch, 71 anos, desembargador do Tribunal de Justiça de São Paulo, fundador e presidente do Instituto Brasileiro Giovanni Falcone de Ciências Criminais, Cavaliere della Repubblica Italiana, professor de Direito, titular das academias paulistas de História e de Letras Jurídicas, já professor visitante de Universidade de Georgetown-Washington, colunista e comentarista da rádio CBN-Globo, colaborador dos jornais Correio Brasiliense, Folha de S.Paulo e O Estado de S.Paulo.


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