Camões não foi lembrado pelo ministro Vicente Leal, do Superior
Tribunal de Justiça (STJ). O grande poeta lusitano foi deixado de lado
na carta de aposentadoria do ministro. Por coincidência, uma carta apresentada
poucos dias antes do encerramento do processo disciplinar que Leal sofreu e
pelo qual foi afastado cautelarmente das funções. O processo administrativo
apurava eventuais favorecimentos a narcotraficantes, mediante "corretagem"
feita pelo deputado federal Pinheiro Landim, que preferiu renunciar ao mandato
e evitar o procedimento de cassação. Na referida carta, o ministro
deixou grafado: "Saio de cena com a vigorosa consciência do dever
cumprido". Portanto, olvidou Camões que alertou: elogio em boca
própria é vitupério (injúria grave).
A verdade é que Leal quis evitar o desfecho do processo disciplinar.
Caiu fora, com os proventos integrais da voluntária aposentadoria, que
não é pena, mas merecimento. Reclamou o ministro dos 14 meses
de espera por uma solução. E, estranhamente, demonstrou não
saber que o Judiciário brasileiro é lento. Lento até para
os integrantes da própria Casa.
No fundo, Leal apresentou uma desculpa esfarrapada para impedir uma decisão
que, ao invés de aposentadoria voluntária e meritória,
poderia ter chegado a uma inglória pena de aposentadoria obrigatória.
Tudo, aliás, sem mexer no bolso do ministro, ou seja, sem nenhuma alteração
de vencimentos.
No caso de Leal, o surpreendente foi o fato de o plenário do STJ, em
decisão secreta, ter arquivado o processo disciplinar. E depois dessa
deliberação corporativa, ainda muitos reclamam da expressão
"caixa preta", ou melhor, intra-muros, para o povo não saber
do conteúdo.
Deve ser lembrado que ainda resta o inquérito policial. Este está
no Supremo Tribunal Federal (STF) e não no STJ, em razão do foro
privilegiado do ministro Leal. Mas, em breve, o próprio STF mandará
o inquérito policial ao juiz de primeiro grau. Com a aposentadoria de
Leal, findou o foro privilegiado e especial. E aí a demora vai voltar
a incomodar o ministro Leal, que terá uma infinidade de recursos e, talvez,
uma prescrição de permeio.
Na segunda-feira, na solenidade de posse do polêmico presidente do STJ,
que foi apadrinhado do então presidente José Sarney, um dos ministros
discursou contra o controle externo. Depois do escandaloso e secreto arquivamento
do processo disciplinar contra Leal, sem apreciação da sua responsabilidade,
vai ficar difícil ficar fora da reforma do Judiciário o mencionado
conselho. E, finalmente, deverá acabar o segredo de Justiça.